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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Como o grêmio mudou minha vida

Participantes do Encontro Nacional de Grêmios contam como a democracia escolar não muda apenas o ambiente de ensino. Também muda vidas.
Além de mecanismo para conquistar direitos nas escolas, o grêmio é o primeiro exercício de cidadania, solidariedade e reflexão na vida de muita gente. Conversamos com algumas das milhares de pessoas que circularam pelo 3º Encontro Nacional de Grêmios e 1º Encontro LGBT da UBES, em Fortaleza, para entender como transformações são possíveis a partir deste instrumento democrático tão simples, mas tão eficaz.
Acompanhe as histórias colhidas na Universidade Federal do Ceará e lembre-se: todo estudante tem direito de se organizar em grêmios desde 1985, graças à lei do grêmio livre. Ainda não tem organização secundarista na sua escola? Leia aqui como formar seu grêmio.
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O movimento estudantil liberta

ENG Camila Silveira
“Onde eu nasci, nós, mulheres, temos duas perspectivas: engravidar e casar. Hoje olho para trás com orgulho, lembrando que eu e colegas nos organizamos na escola e viajamos por 4 dias para um congresso da UBES. Vejo o quanto isso fez nossa vida evoluir.”

         Camila, 32 anos, Fortaleza (CE)

Ao começar sua fala numa mesa sobre gênero, no Encontro LGBT da UBES, a coordenadora de política para mulheres do governo do Ceará deixou de lado as formalidades. “Eu ia fazer uma fala institucional, mas isso aqui fez parte da minha trajetória. Preciso dividir esse lado pessoal com vocês. Costumo brincar que o movimento estudantil liberta”, afirmou Camila Silveira.
Ela explicou que, depois de fazer parte do grêmio de sua escola e viajar para um congresso da UBES no interior de São Paulo, os horizontes se ampliaram para ela e colegas. Principalmente as mulheres, que tinham perspectivas de vida ainda menores: “Casar era a maior ideia de ascensão da nossa vida”.
Tudo começou quando uma cartilha sobre grêmios foi parar em suas mãos. A ideia de reivindicar melhorias caía como uma luva na realidade da Escola de Ensino Fundamental e Médio Plácido Alberado Castelo, em Bom Jardim, onde faltava o elementar: professores e livros.
A antiga chapa Liderança Jovem costuma se reunir até hoje. “Tenho orgulho de ver os caminhos de todos nós”, diz. Depois de formada, Camila Silveira se tornou educadora popular, trabalhou em ONGs e hoje é responsável pelas políticas para mulheres do governo do Estado.

Não tem nada errado com você

lua victoria2
“Quando mudei para o Instituto Federal, conheci o grêmio e várias integrantes que me disseram, pela primeira vez: ‘Tudo bem. Não tem nada errado com você.”

          Lua Victória, 16 anos, Ouro Preto (MG)

Com 15 anos, Lua recorreu ao acompanhamento psiquiátrico do CAPs, por conta de pensamentos suicidas. A fala dela no 1º Encontro LGBT, durante a mesa Saúde e Segurança, criou um clima de união, empatia e solidariedade em toda a sala. Ela desabafou: “Achava que meus parentes preferiam uma neta morta do que uma neta que gostasse de meninas. Fiz tratamento no serviço público de saúde, mas, apesar da boa vontade, os profissionais não conheciam minha realidade. Digo que o movimento estudantil me salvou”.
O tom é doce e forte ao mesmo tempo. Ela conta que estudava numa escola católica que não se preocupava em resolver seus problemas. Quando mudou para o Instituto Federal da sua cidade, conheceu o grêmio e a compreensão oferecida por integrantes dele, o que ajudou a fortalecer sua identidade, autoestima e consciência social. “As meninas do grêmio me disseram ‘Tudo bem. Tá tudo bem com você’, não tem nada errado”.
Envolvida com a luta estudantil e entidades feministas, ela diz que hoje se sente bem mais em paz: “Já fico tranquila em relação à minha família. Porque agora sei que luto por um mundo melhor para eles também”.

Amadureci no fogo cruzado

ENG chico lopes
“Foi no movimento estudantil que eu amadureci. A gente lia, discutia, participava do debate. O movimento de massa é muito envolvente. As passeatas, as articulações, foram me atraindo para me desenvolver cada vez mais.”

           Francisco, 77 anos, Fortaleza (CE)

Chico Lopes foi duas vezes deputado estadual e está no terceiro mandato como deputado federal. Mas o primeiro “cargo”da sua vida foi como representante de turma, nos anos 1960, enquanto se alfabetizava tardiamente. Ele só entrou na escola aos 12 anos. Dentro do movimento secundarista, passou a militar contra o regime militar.
Segundo o deputado, que participou da mesa sobre a PEC do Fim do Mundo, no 3ª Encontro Nacional de Grêmios, esta etapa foi fundamental para o seu desenvolvimento: “Éramos contra o regime, mas não tínhamos muita consciência das consequências. Amadurecemos no fogo cruzado”.
O deputado participou da criação do Centro dos Estudantes Secundaristas do Ceará, a partir da reunião de vários grêmios. “Fui o segundo vice-presidente para relações internacionais – não falava nem inglês, imagina”, ele ri. “O importante era a movimentação, a articulação”, conta. E orgulha-se: “Demos grande contribuição na resistência. Com o tempo, conseguimos derrubar a ditadura sem um tiro”.

Política é para todo mundo

ENG Mariana Ferreira
“Eu achava que política era só o que o presidente do País fazia”

           Mariana Souza, 18 anos, Belo Horizonte (MG

Em casa, Mariana ouvia falar de política, assunto de interesse dos familiares. Mas, foi na escola que aprendeu que todo mundo pode participar. E não, isso não aconteceu em sala de aula. Ela cursa o terceiro ano no Centro Federal de Ensino Técnico, em Belo Horizonte, onde há um grêmio historicamente ativo. “Estudava numa unidade mais isolada, não tinha conhecimento de nada. Até que o grêmio começou a fazer atividades lá. Aí comecei a me interessar, entrei para o grêmio, até fui presidenta por um tempo”, explica. E analisa: “Foi muito importante para a minha vida porque comecei a debater coisas que nem imaginava que existiam. Eu achava que política era só o que o presidente do País fazia. Com o grêmio, entendi que política era tudo que acontece no dia a dia”.

Uma forma de inclusão

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“O movimento estudantil me incluiu. Foi também uma forma de ter respeito, na minha escola e na minha comunidade.”

Flávio, 34 anos, Belo Horizonte (MG)

Flávio de Abreu Lourenço, o cantor Renegado, participou do grêmio nas três escolas por onde passou durante o Ensino Médio. E acredita que esse momento lhe deu “a base sobre política, compreensão coletiva e participação dentro da sociedade”. Além disso, boa parte da autoafirmação do garoto do Alto Vera Cruz veio daí: “O movimento estudantil me incluiu. Foi também uma forma de ter respeito, dentro da minha escola, dentro da minha comunidade”.
Ele visitou ocupações de escolas em Minas Gerais, no ano passado, e neste mês compôs uma mesa sobre o assunto, no Encontro Nacional de Grêmios. Saudou: “Fiquei feliz de ver que quem está puxando o movimento são os historicamente excluídos – pretos, mulheres, LGBTs”.

Olhos abertos

ENG PH
Costumo dizer que, antes do grêmio, eu era apenas mais um corpo vagando.”

PH, 21 anos, Sobral (CE)

Luiz do Sol (ou PH, como é conhecido) empolgou a mesa sobre homofobia, no Encontro LGBT da UBES, ao recitar uma poesia que começava assim: “Eu desço o morro pra vir / Eu subo o morro pra voltar / Eu ando as ladeira da favela / Buscando me empoderar”. Ele mantém a página Bicha Poética e faz parte do coletivo LGBT VRRA – Visibilidade, Resistência, Respeito e Amor, em Sobral. Mas conta que nem sempre foi assim: “Faz seis anos que entrei no movimento estudantil. Costumo dizer que, antes disso, eu era só mais um corpo vagando”.
Hoje, ele cursa Educação de Jovens e Adultos no Senai, pois precisou deixar os estudos, por um tempo, para ajudar a mãe. Mas foi na Escola de Ensino Fundamental e Médio Luís Felipe que conheceu a luta: “O pessoal do grêmio realizou uma roda de conversa para explicar o que era, e assim me interessei. Virei primeiro secretário e isso foi muito importante para a minha construção pessoal. O grêmio abriu meus olhos para ter conhecimento do que acontecia ao meu redor”. PH quer ser jornalista.
Por Natália Pesciotta, de Fortaleza
- Fonte: UBES

Ensino Médio de Temer deixará alunos sem escolha

Apesar das propagandas sobre a Reforma divulgarem que áreas de estudo serão opcionais, a medida sancionada nesta quinta (16) não prevê um número mínimo de itinerários formativos que as escolas são obrigadas a oferecer.
“No lançamento da reforma do ensino médio, a aprovação era de 56%. Hoje, eu vejo pela presença das autoridades que estão aqui, a aprovação é de 100%”, disse Michel Temer ao sancionar a MP 746 (agora PLV 34) nesta quinta (16). Ele atribuiu esta suposta mudança ao “debate democrático”, sem citar que, entre outubro e janeiro, o Ministério da Educação gastou R$ 13 milhões em publicidade, o dobro em relação ao mesmo período no ano anterior.
Além das propagandas em horário nobre na televisão, o MEC pagou para youtubers divulgarem vantagens da mudança, revelou o jornal Folha de S. Paulo.
Em um vídeo do canal Você Sabia, em que os apresentadores dizem contar “tudo que você precisa saber sobre o novo Ensino Médio”, Lukas Marques e Daniel Molo defendem a ideia dos estudantes escolherem a área em que querem se aprofundar no Ensino Médio. “Lá fora já é assim. Onde estudei, na Itália, fiz dois anos normais e escolhi uma formação técnica para os dois últimos anos”, diz Daniel. (Na reforma de Temer, haverá apenas um ano e meio para a base e um ano e meio para o aprofundamento.)

Falta de opção

O maior problema é que, apesar da nova lei estabelecer cinco áreas possíveis para os estudantes optarem (linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e ensino técnico), ela não prevê um número mínimo de itinerários formativos que cada escola tem obrigação de oferecer. “Essa definição fica a critério dos sistemas de ensino, ou seja, das secretarias estaduais, e não dos estudantes!”, explica Monica Ribeiro, coordenadora do Movimento Nacional de Defesa do Ensino Médio.
”Há o risco de o jovem escolher uma determinada área que não esteja disponível em seu bairro ou até em sua cidade, dependendo da região do País”, 
Fonte: UBES

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ana Júlia: Precisamos levar a bagagem do ENG para nossas escolas

Em entrevista ao site da UBES, a estudante paranaense falou sobre como as ocupações mudaram sua vida e como foi participar do 3º Encontro Nacional de Grêmios, em Fortaleza.
Convidada a participar de uma mesa no 3º Encontro Nacional de Grêmios, a estudante Ana Júlia Ribeiro demonstrou no ENG a mesma lucidez que sensibilizou o Brasil no fim do ano passado, ao discursar na Assembleia Legislativa do Paraná em favor das ocupações das escolas. No debate “Grêmios estudantis e ocupações: organizando eu posso desorganizar!”, a paranaense de 16 anos fez um balanço das mobilizações das quais participou a partir de setembro de 2016, consideradas as maiores do movimento estudantil desde os anos 1990.
Quando começa a falar sobre os acontecimentos de 2016 e o que vem pela frente, a timidez da garota vai dando lugar a um discurso consistente e articulado. Ela ressalta, quanto ao encontro de líderes estudantis, a necessidade de cada participante multiplicar o conhecimento e consciência: “É importante nos reunirmos, mas é importante também levarmos à frente toda a bagagem deste encontro para nossos colegas e para escolas ainda sem grêmio, como é o caso da minha”. Confira abaixo a entrevista na íntegra:
"As ocupações proporcionam muito o desenvolvimento de trabalho em equipe, união, solidariedade." (Foto: Marcelo Rocha/ MÍDIA NINJA)

“As ocupações proporcionam muito o desenvolvimento de trabalho em equipe, união, solidariedade.” (Foto: Marcelo Rocha/ Mídia NINJA)

UBES: Por que você acha que o Paraná ganhou uma expressão tão grande na última onda de mobilizações dos estudantes nas escolas, a partir de setembro do ano passado?

Ana Júlia: Primeiro porque as ocupações de 2016, a partir da Medida Provisória 746, começaram no Paraná, em São José dos Pinhais, daí foi para Curitiba, e a informação começou a circular pela região. Em seguida foi ocupado o colégio Central, o maior do estado, e isso só deu mais gás para a mobilização local. Quando já havia 400 escolas ocupadas no Paraná, os outros estados começaram a se mobilizar também.

UBES: O que mudou em você depois da experiência das ocupações?

Ana Júlia: As ocupações proporcionam muito o desenvolvimento de trabalho em equipe, união, solidariedade.
Isso me deu uma experiência pessoal muito grande de como interagir com as outras pessoas e como construir algo em grupo.
Acho que deve ter sido o maior ponto positivo que aconteceu comigo nas ocupações, e acredito que com muitos estudantes também. Mais do que no dia a dia em sala de aula, com certeza. Na ocupação você precisa se preocupar com o outro, você se solidariza.
No ENG, a estudante participa da gravação de um clipe do Chico César.

No ENG, a estudante participa da gravação de um clipe do Chico César. (Foto: Maurício Magalhães)

UBES: O que você acha de um encontro como o 3º ENG, que une estudantes de todo o Brasil em uma cidade?

Ana Júlia: Acho muito importante e fico honrada em participar, mas é importante também trabalharmos para que isso chegue mais às escolas.
Tem muitas escolas que ainda não sabem que isto está acontecendo, escolas sem grêmio, sem mobilização. Principalmente nós, que estamos aqui, temos que levar isto adiante.
É um evento lindo, de bagagem extraordinária para levarmos para nossas cidades, nossas escolas, nossos colegas.
Ana Júlia: "Fomos a categoria mais combativa ao governo ilegítimo, que acreditou que iria aprovar tudo que quisesse na maior tranquilidade". (Foto: Marcelo Rocha/ Mídia NINJA)

Ana Júlia durante mesa que compôs com Camila Lanes, Tico Santa Cruz, Flávio Renegado e Guilherme Brasil: “Fomos a categoria mais combativa ao governo ilegítimo, que acreditou que iria aprovar tudo que quisesse na maior tranquilidade”. (Foto: Marcelo Rocha/ Mídia NINJA)

UBES: A reforma do Ensino Médio foi o estopim para as ocupações em todo o Brasil, a partir de setembro. Por que acha que ela não é adequada?

Ana Júlia: Ninguém nega que se precise de uma reforma do Ensino Médio (e do ensino como um todo), nem que a reforma tenha pontos positivos.
O problema é que esta história de que o estudante vai escolher o que quer estudar é uma furada. Na verdade, a escola que vai escolher o que proporciona. Isto causa um grande problema aos estudantes das periferias.
A MP também traz uma formação técnica muito mais à frente da formação humana. Não admitimos isso. Não queremos ser máquinas para o mercado de trabalho. Com as ocupações, conseguimos o retorno das disciplinas de filosofia, sociologia, artes e educação física [na base nacional curricular comum]. Foi uma das vitórias, uma vitória parcial. No mais, a MP nada mais é que um caminho para a privatização da escola pública. E o notório saber, permitido no ensino técnico, prejudica o ensino.

UBES: Pela sua vivência em sala de aula, quais são os maiores problemas da educação hoje?

Ana Júlia: Infraestrutura, não ter um investimento em melhores condições para termos aulas de maneiras mais diversas. A baixa escolarização dos professores e a falta de valorização profissional dos professores. E a falta de estímulo para o estudante – falta uma ponte entre o aprendizado e a vida.
Por Natália Pesciotta, de Fortaleza
UBES

7 pontos por que a Reforma do Ensino Médio pode aumentar os problemas em vez de resolvê-los

Segundo especialistas, as desigualdades na oferta de ensino público podem ser aprofundadas. Projeto de mudança foi colocado sem diálogo e sem verbas adequadas.
Desempenho fraco no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), alta evasão escolar e muitos jovens fora da escola. Estas foram a justificativas do governo ilegítimo de Temer para editar a Medida Provisória 746/16, que muda o Ensino Médio. Por outro lado, especialistas dizem que a medida lançada em setembro de 2016, aprovada pela Câmara dos Deputados em dezembro como PLV 34/16 e prestes a passar pelo Senado, não será a solução para os problemas na Educação, conforme mostra o MEC em propagandas de TV.
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1) Quem escolhe não são os estudantes

À princípio, a ideia desta reformulação pode parecer boa: além de cursar a base geral, cada estudante escolhe um dos campos para se aprofundar – linguagens, matemática, ciências biológicas, ciências humanas ou ensino técnico profissionalizante. O problema é que as escolas não vão oferecer todos eles. Cada unidade só precisa ter pelo menos dois desses itinerários.
“Assim, corre-se o risco de o jovem escolher uma determinada área que não esteja disponível em seu bairro ou até em sua cidade, dependendo da região do País”, explica Antônio Gomes Batista, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
Para piorar, não há regras do MEC sobre os conteúdos a serem oferecidos nesta parte do currículo. Eles são de responsabilidade dos próprios sistemas de ensino, ou seja, as secretarias estaduais.

2) Nada é pra já

Apesar da pressa para aplicar a reforma via Medida Provisória, e não via Projeto de Lei, nada muda em 2017. Isto porque é necessário aguardar a decisão de outra lei, que está sendo discutida por especialistas desde 2012: a da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), que deve sair no fim do ano e estipular quais serão os conteúdos obrigatórios para todos os estudantes. “O governo Temer colocou o carro na frente dos bois”, afirma Daniel Cara.
Todas as escolas têm até 2022 para oferecerem pelo menos 1.000 horas por ano (hoje, são 800 horas). Algumas escolas vão receber verba para chegar à carga horária ideal de 1.400 horas anuais. Nas escolas padrão, que terão mil horas por ano, ficarão 1.800 horas, nos três anos, para a Base Comum. E 1.200 para a área específica.
Gráfico MP

3) O bom ensino técnico já existe

Para a doutora em Educação Monica Ribeiro da Silva, do Movimento Nacional em Defesa do Ensino Médio, o campo de formação técnica em escolas comuns, com apenas 1.200 horas nos três anos, é “um arremedo de formação”, que “não contempla nem a formação básica, nem a profissional”.
Daniel Cara ressalta que a campanha Todos Pela Educação luta para que toda a escola pública brasileira tenha a mesma qualidade dos institutos federais: “Já temos um formato que dá certo, o problema é que o custo por aluno é mais caro”.
Ele explica que os formados nestes institutos tendem a ser os chefes, enquanto os futuros formados pelos itinerários técnicos deverão ser os funcionários. “A educação deveria servirpara reduzir as desigualdades de um país como o Brasil, não para realçá-las”, frisa.
ato em são paulo contra pec (1)

4) Integral para quem?

A MP prevê uma “política de fomento” para o período integral, ou seja, as 1.400 horas anuais, ou 7 h/dia, como orienta o Plano Nacional de Educação. Muitos defensores da reforma falam deste repasse federal, por 10 anos, como ponto positivo. Mas a verba para adoção do integral chega apenas a cerca de 3% das escolas do País.
Antônio Gomes, do Cenpec, observa que, ainda por cima, as escolas já selecionadas para serem contempladas com essa verba concentram-se em estados que já possuem mais estrutura, inclusive ultrapassando o limite previsto na MP, de apenas 30 escolas por estado.
“O risco que se corre é de se aprofundar as desigualdades de oferta de ensino entre os diferentes estados, o que fere o princípio de equidade”, diz o doutor em Educação, Antônio Gomes.
Gráfico MP 1

5) Professor de faz-de-conta

A carreira de professor, já desvalorizada, pode piorar com uma concessão prevista na lei da reforma: o “notório saber” é uma autorização que as escolas podem dar para profissionais lecionarem no ensino técnico, ainda que sem licenciatura ou preparo em pedagogia.
Estudantes protestam pela retirada da MP 746
Estudantes protestam pela retirada da MP 746

6) Sem democracia

A renovação do Ensino Médio não é um tema novo, mas uma necessidade discutida há anos por atores da educação. O que eles não esperavam era a reforma feita via MP, sem diálogo. Cesar Callegari, membro do CNE, está entre os que se indignam com a MP.
“Melhorar e reformar o ensino médio é urgente e necessário. Mas não se faz isso sem a participação dos principais interessados, estudantes e professores.” Cesar Callegari, membro do CNE

7) Uma reforma sem os materiais

Mais que a falta de diálogo, outro fator dificulta a implementação real do projeto para 2018: falta verba. “Estes itinerários formativos não podem ser improvisados. É necessário investir nos professores e nos equipamentos escolares. Mas a MP não aponta mais investimentos. Ao contrário: A PEC 55, do limite de gastos, já aprovada, vai reduzir os investimentos para a educação”, diz Caleggari.
Para Camila Lanes, presidenta da Ubes, “é como se o governo fosse fazer uma reforma em casa, mas sem comprar os materiais”, o que pode “colaborar com a evasão e retroceder, em vez de avançar”.

* Esta matéria foi publicada inicialmente no jornal Plug – especial 3º Encontro Nacional de Grêmios e 1º Encontro LGBT da UBES 

domingo, 22 de janeiro de 2017

No MinC e nas secretarias, a cultura aos reacionários



A práxis conservadora no setor dá algumas pistas de métodos e contornos que pouco dizem respeito aos temas culturais propriamente ditos: abandono de projetos tidos como “menores”, em detrimento de vitrines de gestão, empreguismo galopante e, em oposição ao assembleísmo petista, certa gabinetização, um ensimesmamento dos dirigentes. As exceções são raras.

Em Brasília, sobretudo, a situação é das mais embaraçosas. Após um mês à frente da pasta, o atual ministro, Roberto Freire, sempre diligente nas críticas ao “aparelhamento” do Estado pelos governos petistas, nomeou uma dezena de candidatos derrotados nas últimas eleições pelo seu partido, o PPS, para cargos de assessorias e secretarias do ministério.

Candidatos eleitorais derrotados têm sido acomodados apressadamente em toda a estrutura da pasta. Derrotada ao postular uma vaga na Câmara de Vereadores em Campo Grande (MS), Luiza Ribeiro Gonçalves ganhou o cargo de secretária da Cidadania e da Diversidade Cultural. Alberto Aggio, frustrado na corrida eleitoral na paulista Franca, virou assessor especial do ministro.

Fábio Cesar Sato, candidato derrotado à prefeitura de Presidente Prudente (SP), ganhou uma boquinha de assessor na Secretaria Executiva. O novo secretário de Articulação e Desenvolvimento Institucional, Adão Cândido, é o candidato derrotado do PPS a vice-governador do Distrito Federal.

Além desses, o braço direito do ministro, o cineasta João Batista de Andrade, é filiado ao partido. O novo presidente da Funarte de Freire, o ator Stepan Nercessian, foi derrotado na disputa por uma vaga na Câmara Federal em 2014.

Nercessian atribui os percalços na política ao envolvimento no escândalo com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, com quem teve conversas íntimas gravadas e divulgadas. “Eu brincava com ele pelo telefone: ‘E aí vamos contratar o Messi?’”, lembrou sobre o episódio.

Isso sem considerar os problemas de conflitos de interesse subjacentes a certas nomeações. O novo secretário de Economia da Cultura de Freire, Mansur Bassit, deixou o cargo de diretor-executivo da Câmara Brasileira de Livros, que ocupou por cinco anos, para assumir o posto.

Coloca-se à frente de um orçamento para estimular uma economia criativa um representante dos mais articulados setores da cultura.

Além do uso da máquina em benefício de um partido, há outras pistas sobre como se comporta a reação na cultura. A característica desagregadora é uma delas. Há uma ação que Freire faz questão de sinalizar que pode se constituir numa apressada “contrarreforma” na lei de incentivo à cultura, a Lei Rouanet. E o que ele propõe? O retorno a porcentuais diferenciados, por área cultural, de renúncia fiscal.

“Entre as medidas estudadas está a definição de tetos de repasses para cada segmento cultural (artes cênicas, música erudita ou instrumental, exposições de artes visuais, produção cinematográfica, espetáculos circenses etc.), fixando novos critérios para a concessão do incentivo fiscal, de modo que sejam evitadas distorções inexplicáveis à luz da razão e do bom senso”, escreveu Freire em artigo publicado há alguns dias.

O equívoco sanado no passado com gigantesco debate democrático é que, ao conceder benefícios diferenciados para certas áreas, o ministério torna alguns setores mais atrativos que outros e condena vários segmentos ao esquecimento dos patrocinadores.

No Brasil, a ação de desmonte no setor da cultura implode estruturas e projeta um futuro desolador para artistas e produtores. No Rio Grande do Sul, o governador José Ivo Sartori extinguiu 11 fundações, entre elas a Piratini, mantenedora da TVE e da FM Cultura.

Em São Paulo, o governo de Geraldo Alckmin fechou dez unidades das oficinas culturais do interior e do litoral, espaços gratuitos que existiam havia 30 anos, forneciam programação de artes plásticas, audiovisual, circo, performance, quadrinhos, dança, fotografia, literatura, música e teatro, e atendiam cerca de 400 municípios.

Cerca de 50 profissionais foram demitidos, e entre as unidades fechadas está a Oficina Cultural Pagu, de Santos, recém-restaurada a um custo de 10 milhões de reais. Outras que tiveram atividades encerradas foram a Gerson de Abreu, de Iguape, a Altino Bondesan, de São José dos Campos, a Grande Otelo, de Sorocaba, a Carlos Gomes, de Limeira, a Sergio Buarque de Hollanda, de São Carlos, e a Candido Portinari, de Ribeirão Preto.

As oficinas que sobraram, como a Oswald de Andrade, funcionam com um quadro de funcionários reduzido, e a Casa Mário de Andrade está mais para um museu do que uma oficina. O governo Alckmin diminuiu os contratos do Projeto Guri, da Orquestra Jazz Sinfônica, da Banda Sinfônica e da Escola de Música Tom Jobim e expressa o desejo de acabar com o Conservatório de Música de Tatuí.

Diferenças

Fora da esfera dos governos federal e estaduais, a cena é nebulosa. As secretarias de Cultura das grandes cidades brasileiras, nos últimos anos, tinham se convertido em oásis de ações de fomento, mas as novas perspectivas são duvidosas.

Em Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. assumiu a prefeitura com a perspectiva de atrasar salários. Nomeou o dramaturgo Luciano Alabarse, criador do festival Porto Alegre em Cena e colunista do jornal Zero Hora, para a pasta.

“Queremos utilizar a cultura como um estímulo, como uma atividade econômica em que as pessoas possam se realizar. A secretaria não será um balcão e não vai acomodar amigos para evitar críticas de um setor da sociedade”, afirmou Marchezan. 

Em São Paulo, o cineasta André Sturm iniciou a gestão obrigado a apagar incêndios provocados por declarações do prefeito João Doria Jr. O prefeito chegou a anunciar a transferência completa da Virada Cultural para Interlagos, decisão negada pelo secretário em seguida.

As justificativas para o esvaziamento do Centro da cidade são vagas e não encontram respaldo na experiência bem-sucedida de valorização e ocupação da região. Houve ainda especulações sobre uma investida da prefeitura sobre o carnaval de rua de São Paulo, novo objeto de explicações do secretário.

Sturm transita bem em uma área espinhosa, a da gestão de Organizações Sociais, um pepino que mantém o Tribunal de Contas ocupado há mais de uma década. A habilidade nesse setor o tornaram beneficiário de generosas verbas para administrar.

O elogiado Museu da Imagem e do Som teve 6 milhões de reais do governo do estado no primeiro quadrimestre de 2016. As oficinas culturais fechadas, todas elas, custavam 10 milhões de reais, mas a ação da direita na cultura tem essa particularidade: tudo que for destinado para a Avenida Europa é melhor investimento do que destinar recursos para a Oficina Fred Navarro, de São José do Rio Preto, que atende 93 municípios.

Sturm conta com crédito entre a classe artística e é hábil na estratégia de cooptar apoios. Colocou o escritor Cadão Volpato, frontman da lendária banda de rock Fellini, na direção do Centro Cultural São Paulo, símbolo da cidade. Ligou para o empresário e agitador cultural Alê Yousseff para explicar que não haverá mudanças no atual modelo do carnaval de rua. 

O Rio de Janeiro pinta como a “zebra” dessa lista de novos mandatários da cultura metropolitana brasileira. Surpreendentemente, o prefeito Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, nomeou a neta de Cartola, Nilcemar Nogueira, como secretária de Cultura do município.

Na posse dos secretários, Crivella cantarolou As Rosas Não Falam, de Cartola. Nilcemar diz não ver conflitos na gestão da cultura num governo fortemente ligado a uma religião e diz ter recebido total liberdade do prefeito para atuar. Sua meta é “aprofundar os projetos que estimulem e incluam a diversidade”, e ela pretende trabalhar em parceria com a Secretaria de Educação, “pois trata-se de um tema transversal à cultura”.