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quinta-feira, 28 de junho de 2018

UBES e UNE denunciam atraso do PNE no Congresso

Por Natália Pesciotta

Entidades participaram de balanço dos 4 anos do Plano Nacional de Educação. Assunto preocupa e é destaque do Seminário de Educação da UBES.

Ao completar 4 anos, o Plano Nacional de Educação tem sido analisado em várias frentes. Na última quarta (20/6), o balanço das 20 metas foi feito em um seminário na Câmara dos Deputados, por iniciativa da Comissão de Educação.
Muitos dos participantes demonstraram preocupação. Isso porque o plano, com duração de 2014 a 2024, chega a quase metade do tempo estabelecido com poucas metas encaminhadas. Marcelo Acácio, vice UBES no Distrito Federal, e Vinicius Paranaguá, diretor da UNE, estiveram entre os que denunciaram os atrasos e até a impossibilidade de atingir próximos objetivos.
Marcelo lembra que, até 2019, 7% do PIB brasileiro deveria ser destinado à educação, mas hoje está em 5%, num cenário de verbas congeladas, com a “PEC do Fim do Mundo” (emenda constitucional 95). Além disso, de acordo com o PNE, todos os jovens entre 4 e 17 anos já deveriam estar matriculados no ensino básico. Mais de dois milhões estão fora das salas de aula.
Coordenador do Fórum Nacional Popular de Educação (FNPE), Heleno Araújo Filho citou outras exigências do plano que ficaram no papel: um piso nacional para os professores e a existência do Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQI), que garantiria verba mínima por estudante.
Para os participantes, falta prioridade e vontade política com a questão, principalmente após o golpe que instituiu o governo de Michel Temer. Daniel Cara, da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, diz que é urgente o PNE voltar à centralidade na agenda e na definição de políticas públicas.
O próprio Inep, órgão do Ministério da Educação, divulgou no começo de junho um balanço em que avalia que algumas questões regrediram em vez de avançar. Por exemplo a educação integral, que caiu de 17,6% em 2014 para 17,4% no ano passado. E as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, que recuaram de 1,88 para 1,79 milhão de jovens matriculados. O plano prevê triplicar o número de 2014 e atingir 4,8 milhões.
Para os participantes, falta prioridade e vontade política com a questão, principalmente após o golpe que instituiu o governo de Michel Temer

UBES realiza seminário sobre o tema

O estágio atual do Plano Nacional de Educação é um dos principais temas do próximo Seminário Nacional de Educção da UBES, nos dias 20 e 21 de julho. Com o mote “Construindo a Nossa Escola”, serão debatidas as políticas públicas de educação e quais os caminhos para que o PNE seja recuperado.
 Marcelo Acácio, representante da UBES no Seminário da Comissão de Educação, destaca que a juventude precisa se apropriar desse tema, ainda mais em ano eleitoral, quando é necessário apresentar ideias e defender projetos. “Essa discussão é crucial para o país definir se educação serve para formar mão de obra barata ou para a formação de pessoas com senso crítico e participação efetiva na sociedade”, diz o jovem.
Baixe as artes do Seminário da UBES aqui
Fonte: UBES

domingo, 24 de junho de 2018

Ditadura nunca mais: por quê?

http://cdhpf.org.br
A história brasileira é marcada por longos períodos de exceção vividos sob ditaduras civis-militares e por breves períodos democráticos. O atual período democrático é o mais duradouro e consistente. Ele sucede, não esqueçamos, a recente ditadura civil-militar que emudeceu o Brasil por 20 anos, de 1º de abril de 1964 a 1985.
Mas, por que ditadura nunca mais? O que cabe a uma democracia que sucede a uma ditadura? Estas não são perguntas. São questões. Por isso, queremos menos responder a elas e mais ajudar a refletir sobre elas.
Ditaduras são formas de organização da vida política que impedem a liberdade, escondem a verdade e obscurecem a memória, comprometendo a justiça. Elas nascem como forma de fazer com que os interesses de grupos se imponham à vontade do conjunto da sociedade. Ditaduras só servem a quem é parte do poder por elas constituído e a quem a ele se alia ou a ele se submete. Não servem ao povo. A rápida descrição parece ser suficiente para ajudar a refletir e a tomar uma posição definitiva: ditadura, nunca!
O povo brasileiro sabe o que significou a ditadura militar nas suas vidas. Famílias que perderam seus filhos ainda esperam para enterrá-los. Pessoas que foram torturadas ainda esperam para poder dizer quem foram seus algozes. Vozes ainda têm dificuldade de dizer com força o que pensam por terem medo de serem reprimidas. A tortura segue sendo prática sistemática em delegacias e presídios Esta é a herança da ditadura. Vítimas que sofreram e ainda sofrem a injustiça, que ainda esperam pela possibilidade de dizer sua palavra e ver a verdade proclamada. Vítimas que ainda esperam por justiça.
Aqui já começamos a enfrentar a segunda questão. Uma das tarefas da democracia é exatamente abrir os arquivos, sejam eles quais forem, estejam eles onde estiverem, e permitir que cada um possa dizer a sua palavra. Abrir um debate público sobre o sentido da história para construir a verdade histórica como expressão da memória coletiva e criar condições para que a justiça ética às vítimas seja feita, não como vingança, mas como reparação, são desafios à democracia. Por isso, só se consolida a democracia se forem criadas condições para que a verdade seja obra da sociedade e que a justiça seja efetiva vida de cada uma e de todas as pessoas. Sem isso, qualquer democracia será uma democracia pela metade. E democracia
pela metade não é democracia!

A democracia é preferível a qualquer ditadura não por outro motivo senão porque permite que memória e verdade sejam constitutivas da justiça como realização de condições para a efetivação da dignidade humana. A justiça exige o reconhecimento das injustiças e de suas vítimas, que sofreram a injustiça. Sem isso, a justiça é vazia. Mas, sem que as próprias vítimas possam dizer sua palavra, sua verdade, recorrendo à memória dos fatos que as levaram à situação de vitimização, não há justiça. O querer justiça como memória e verdade das vítimas é um direito das próprias vítimas, mas não só, ele também é de todos os seres humanos, até porque esta é a forma efetiva de engajar a todos/as para que não sejam produzidas novas vítimas. Por isso, o direito à memória, à verdade e à justiça se constitui num dos direitos humanos mais basilares das sociedades democráticas. O nunca mais a todo e qualquer tipo de violação de direitos, a todo tipo situação que produz vitimas, a todo tipo de inviabilização do humano, é a expressão positiva do querer um mundo justo e humanizado para todas e cada uma das pessoas.
Por isso faz sentido a Comissão Nacional da Verdade, criada pela Lei nº 12.528, de 18/11/2011. Ela poderá ser um espaço capaz para construir a verdadeira verdade sobre o período da ditadura civil-militar brasileira e, por outro, para desconstruir algumas das verdades repetidas – nem tão verdadeiras assim – pelos que têm pavor de verdades que não sejam as deles próprios. Ela não terá alcance para fechar o tripé, pois dela não se poderá esperar justiça. Mas, se ela for capaz de produzir verdades com base na memória das vítimas, certamente abrirá caminho para que venha também a justiça. Por isso, ela é um grande recurso para que a democracia gere condições a fim de que, em uníssono, a sociedade brasileira diga: ditadura, nunca mais! Democracia, sempre, e com direitos humanos!
Paulo César Carbonari
Doutorando em filosofia (Unisinos), professor de filosofia no IFIBE, ativista de direitos humanos (MNDH/CDHPF).

O papel do movimento estudantil na resistência à ditadura

Nas décadas de 1960 e 1970, o movimento estudantil brasileiro foi importante foco de resistência e mobilização social à ditadura civil-militar. Organizados em diversas entidades representativas, como os DCEs (Diretórios Centrais Estudantis), as UEEs (Uniões Estaduais dos Estudantes) e a UNE (União Nacional dos Estudantes), suas reivindicações, protestos e manifestações influenciaram os rumos da política. Os estudantes protestavam por causas específicas como a ampliação de vagas nas universidades públicas, por melhores condições de ensino, contra a privatização e também em defesa das liberdades democráticas e por justiça social.
Em março de 1968, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto foi morto pela polícia militar no Rio de Janeiro (RJ) durante um protesto, o que causou comoção popular e marcou o início de intensas mobilizações contra o regime. Com receio que a Polícia Militar sumisse com o corpo de Edson Luís, os estudantes o levaram para ser velado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A notícia da tragédia havia se espalhado e mais de 50 mil pessoas tomaram as ruas. A UNE decretou greve geral, entidades estudantis de vários estados solidarizavam-se com o ato, sindicalistas, artistas, religiosos e intelectuais demonstravam apoio ao movimento. Em junho do mesmo ano, a chamada “Passeata dos 100 mil” marcou a história da resistência e teve participação expressiva de estudantes.
Entre 1968 e 1978, sob o AI-5 e a Lei de Segurança Nacional de 1969, ocorreram os chamados Anos de Chumbo. Neste período, houve um estado de exceção com controle sobre a mídia e a educação, censura sistemática, prisão, tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores do regime.
Em 1974 começaram a surgir os primeiros sinais da recuperação do movimento estudantil. A nova geração de estudantes, que militaram e lideraram as frentes universitárias da década de 1970, teve pela frente o árduo trabalho de reconstruir as organizações estudantis. O Congresso de reconstrução da UNE aconteceu Salvador, em 1979, reivindicando mais recursos para a universidade, defesa do ensino público e gratuito, assim como pedindo a libertação de estudantes presos do Brasil.
Com o fim da ditadura militar, o movimento estudantil voltou às ruas para defender suas bandeiras e a consolidação da democracia no país. Em 1984, estudantes participaram ativamente da Campanha das “Diretas Já”, com manifestações e intervenções importantes nos comícios populares.
Fontes:

Coleção da Revista Caros Amigos “A ditadura militar no Brasil – A história em cima dos fatos”

O rock e as lutas sociais em 1968

Campinas
O compacto da canção Street Fighting Man, da banda de rock inglesa Rolling Stones, lançado em 1968, escancarou de uma vez por todas os vínculos políticos do rock com a agitação política do período.
Mick Jagger declarou na época: “É idiota pensar que se pode começar uma revolução com um disco. Eu gostaria que isso fosse possível". Até que ponto os conjuntos de rock dos anos 60 eram expressões musicais das lutas sociais ou meros reflexos da cultura jovem embalada para vender é uma questão a ser pensada. Mas se a memória dos conflitos políticos não é somente imagética mas também sonora, quem poderia refutar que a guitarra foi em 68 um item tão presente quanto pedras, coquetéis molotov, cartazes e bandeiras no enfrentamento dos fundamentos da civilização burguesa?
Se os Rolling Stones são ou não a maior banda de rock de todos os tempos este é um debate para fãs, críticos e historiadores deste gênero musical. Mas dizer se os Stones foram ou não uma das bandas mais socialmente perigosas para o status quo já é uma questão que aguça também a curiosidade dos militantes de esquerda. Não se trata tanto daquela sacada de marketing em que Jagger e companhia seriam uma versão diabólica dos Beatles. Isto sim é algo datado, mero mecanismo comercial dentro da cultura de massa dos anos 60. Voltando à declaração do vocalista dos Stones, a questão que nos interessa é saber se uma canção, mesmo mergulhada nos esquemas comerciais, poderia influenciar a luta política.
Que uma ideia política, inclusive uma ideia política subversiva, possa ser comunicada através de um livro, de uma pintura, de um filme ou de uma peça de teatro, todos sabemos que sim. 
Para o marxismo, a arte em si não provoca revoluções, mas pode participar ativamente de uma revolução enquanto importante força ideológica. Pode-se dizer que o mesmo ocorre também com canções inseridas no já nostálgico formato do disco. Um possível argumento para negar este fato é que, enquanto produto direto da chamada indústria cultural, o disco estaria contaminado por uma fórmula comercial que tende à padronizar a expressão e gerar manifestações que seriam distintas das obras de arte. 
Mas como sustentar este argumento quando nos deparamos com canções que não apenas integravam-se ao conteúdo político dos quebra paus de rua de 1968, mas causavam também problemas na própria cadeia produtiva em que a música era disseminada? Street Fighting Man foi banida da BBC. Em Chicago, palco de conflitos em que a prefeitura tinha literalmente ordenado que a polícia metesse bala nos manifestantes, as rádios também proibiram a música dos Stones.

Além destes fatos históricos, seria difícil neste período da carreira dos Rolling Stones afirmar que os caras seguiam à risca fórmulas comerciais. 
Ainda que tivessem os bolsos cheios de grana, ainda que compactuassem com as estruturas comerciais, a banda deitava raízes na violência estética, no experimentalismo, criando um rock visceral cujo teor altamente sexual e as atitudes libertárias não eram bem vistos pelas autoridades. Esta música poderia ser qualificada de revolucionária? A palavra "revolução" nem sempre era politicamente precisada nas inúmeras manifestações políticas e artísticas do período. Nem sempre as convulsões culturais dos anos 60 estavam atreladas a um projeto político em que o proletariado lidera uma revolução e estabelece um regime socialista de transição. No entanto, o que muitos militantes comunistas se esquecem é que a cultura em épocas revolucionárias ou de agitação social precisa necessariamente provocar o desiquilíbrio da moral dominante e rupturas estéticas que trabalham, a seu modo, pela destruição do regime burguês.

A questão não é afirmar que os Stones eram compositores revolucionários, mas sim uma barulhenta expressão da rebeldia que é importantíssima para o ritmo cultural em épocas revolucionárias. Na canção Street Fighting Man, por exemplo, o clima do Maio de 68 pulsa de cima a baixo. Na letra da música, o rock é entendido enquanto canal de comunicação da juventude proletária com a vida política contestadora: "Então o que mais um garoto pobre pode fazer a não ser cantar em uma banda de Rock’n’Roll? Porque na Londres adormecida simplesmente não há lugar para um guerreiro de rua (...)".
Diante dos últimos acontecimentos na Inglaterra, quando a mídia capitalista preocupou-se em narrar os modelos de chapéus, vestidos e ternos dos convidados do casamento do príncipe Harry, não deve ser fácil para um garoto pobre inglês se fazer ouvir através do rock ou de qualquer outra forma artística contestadora. Ainda assim, a canção clássica dos Stones que integraria o álbum Beggar´s Banquet, também de 1968 (e, diga-se de passagem, um dos mais importantes discos de rock dos anos 60) é um exemplo histórico em que a música torna-se o ar político por onde muitos jovens enchiam seus pulmões.
É preciso ter cuidado para que o clássico não seja cultuado, o que entraria em contradição com a função social e política da arte do nosso tempo (quando a obra de arte fica próxima das massas, como no caso da música pop, é preciso a exemplo do que nos ensina Walter Benjamin, expor o fim do ritual e defender o caráter político contestador da arte). 
Para quem souber ouvir, o rock de 1968 sussurra mensagens subversivas para os jovens de 2018.

Fonte: esquerdadiario.com.br

O socialismo e as contribuições do pensamento surrealista

Campinas
O socialismo nada tem a ver com um mundo desbotado, uniforme, sem graça, em que populações famintas e sexualmente reprimidas cultuam tiranos. Existem três casos para definirmos as pessoas que confundem o socialismo com Estados operários deformados: são aquelas que agem como papagaios de pirata nas redes sociais, aquelas que compraram narrativas da mídia burguesa ou ainda aquelas que são abertamente fascistas. 

Estas mesmas pessoas fazem questão de maltratar a imaginação, de reprimir a poesia que escapa ao valor de troca. Na luta pela destruição das cadeias do capital, existe um projeto de cultura revolucionária em que o sonho não é intruso ou parêntesis da vida. Tal projeto contempla a importância fundamental do Surrealismo na luta anticapitalista.

Como observou certa vez Mário Pedrosa, o revolucionário sonha... Este último não pode deixar de levar em conta que os séculos de opressão das classes dominantes sobre classes dominadas( em determinados períodos da história), privaram a humanidade de conhecer profundamente sua metade adormecida: é ali no abismo do sonho, nas profundezas do desejo, que as imagens incandescentes trazem o esplendor da “ verdadeira vida “. Longe de ser ilusão ou escapismo, esta dimensão da vida precisa estabelecer uma nova relação com o mundo da vigília. Hoje o capitalismo é o principal obstáculo para isso: trabalhar, trabalhar e trabalhar sem que o homem expresse/realize suas aspirações( visto que enquanto assalariado ele gera capital para um proprietário) acarreta num mundo em que o desejo é uma caricatura.
O escritor francês André Breton mostrou, com todas as letras do desejo, que a Revolução socialista deverá proporcionar o questionamento da polaridade entre o sonho e a vigília. Esta é uma necessidade libertária já que na sociedade de classes os homens são privados de si mesmos. Em obras como Os Vasos Comunicantes(1932), Breton não apenas torna possível um diálogo entre Lenin e Freud. O cabeça dos surrealistas defende um modo de ação poética que, como já foi sublinhado em outras ocasiões nesta coluna, é da maior importância na luta contra a sociedade da alienação. Caminhando e se perdendo pela cidade, errando com passos livres, estabelecendo livres associações entre objetos/situações e suas necessidades interiores, o poeta interrompe a continuidade de um mundo alienado. Ao dar um passo e abrir-se sem pudor ao acaso, o poeta em seu olhar sonambulamente ativo descobre as energias ocultas dos objetos da cidade(e suas relações com o seu mundo interior). Um conhecimento secreto emerge a partir das “ iluminações profanas “(Benjamin).
Se o espaço do poder econômico capitalista é representado velozmente pelas narrativas da posse e da acumulação, o Surrealismo suspende o tempo da alienação em nome do maravilhoso, em nome de uma liberdade radical. O ritmo do poeta surrealista é outro... A cada esquina, seja sonhando ou acordado, descobre-se outras possibilidades não apenas para o destino individual mas para a história! O caminho do homem está em aberto, a nomeação que os capitalistas fazem da realidade é insuficiente para o desejo. Alguns pensadores marxistas perspicazes perceberam o valor revolucionário da poesia surrealista, que interrompe o tempo do capitalismo e abre novos caminhos no rio do pensamento: o que corre por este rio é a busca do amor desvairado, é a recusa de um modo de existência social, é a abertura para engajar-se na revolução social, é a rebelião contra tudo aquilo que controla e manipula a imaginação.
A posição surrealista choca-se com rígidos padrões estéticos, demole concepções imóveis de beleza: é a beleza convulsiva que Breton defende em Nadja(1928). É a implosão da lógica racionalista do espaço urbano que Louis Aragon apresenta na sua obra prima O Camponês de Paris(1926). 
A conduta surrealista faz do desejo a verdadeira luz que move o humano: acasos e sinais do inconsciente são traduzíveis para aqueles que ao entregarem-se à imaginação despediram-se das convenções burguesas. Tudo isto é fundamental para pensarmos a cultura no socialismo.

Não existe nenhum inconveniente teórico em defender a arte política, que expressa o ponto de vista político revolucionário dos trabalhadores na luta de classes, e ao mesmo tempo defender as ideias do Surrealismo. Este último age de acordo com suas peculiaridades filosóficas sobre a luta de classes, exigindo uma atenção maior sobre questões libertárias que até hoje muitos comunistas ignoram. É necessário no plano cultural defender uma plataforma plural de atuação: precisamos escrever e falar incansavelmente(repetidamente, quantas vezes for necessário) que na luta anticapitalista a arte assume diferentes papeis, que contemplam numa mesma trincheira tanto estratégias didáticas/de agitação política, quanto formas destrutivas/abertamente anárquicas. 
Aliás não é apenas o Surrealismo que contribui culturalmente com o socialismo mas inúmeros outros movimentos revolucionários do século passado, a serem estudados/aproveitados em suas intuições poéticas.

Uniformidade, rigidez e repressão não fazem parte do cardápio cultural dos marxistas. Deixemos que os medíocres tagarelem sobre aquilo que não conhecem. Mas o que não podemos permitir é que o socialismo seja confundido com as imagens estereotipadas do stalinismo. A luta dos trabalhadores/a luta revolucionária possui muitas formas. O socialismo deve falar a língua do desejo.
Fonte: esquerdadiario.com.br

MARIELLE FRANCO: 102 dias sem Marielle e Anderson: não esquecemos, não perdoamos

Imagem: genildo.com

Hoje (24) completam-se 102 dias do assassinato brutal de Marielle e Anderson. Que foram mortos no dia 14 de março, no bairro do Estácio, região central do Rio de Janeiro.
Embora tenha causado grande repercussão internacional e uma enorme mobilização nacional, que levou centenas de milhares às ruas com muita revolta e indignação, suas execuções até hoje permanecem sem resposta. Assim como, as investigações que não trazem nada de concreto sobre a autoria e motivação do crime.
Conduzida pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a investigação segue sob sigilo. Porém as principais linhas de apuração apontam para a atuação de milícias ou crime político.
O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) em entrevista ao HuffPost Brasil afirmou que "A investigação vai dizer qual grupo político matou a Marielle, seja ele um grupo partidário ou de milícia ou seja lá o que for. E é isso que a gente quer saber. A gente quer saber quem matou, quem mandou matar e por quê", disse também que confia no trabalho da polícia. Segundo ele, o grau de complexidade do crime impõe um ritmo particular à investigação.
Freixo deposita confiança nas investigações, na polícia e no estado, responsáveis por tantas barbáries e assasinatos. O que temos hoje é a falta de resposta, resposta para a brutal execução de uma mulher negra, bisexual, "cria da Maré" como gostava de dizer, que denunciou a Polícia Militar, que lutava contra a Intervenção Federal na cidade do Rio de Janeiro.
A mesma comunidade da Maré de Marielle, que sofreu essa semana mais uma operação assassina da polícia com a ajuda do exército. Onde um jovem de 14 anos usando uniforme escolar teve sua vida corrompida.
Marielle que um dia antes de seu assassinato, ao comentar o assassinato de outro jovem pela PM do Rio de Janeiro, questionou em suas redes sociais: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Seguimos questionando, as operações policiais são constantes nas favelas do Rio e inocentes seguem sendo mortos.
Cem dias sem Marielle Franco e Anderson Gomes, e sua investigação continua nas mãos dessa mesma polícia, desse mesmo Estado, que oprimem e matam. Não confiamos nessa justiça, e sabemos que somente uma investigação independente poderá responder a angústia e revolta de milhões que saíram às ruas em repúdio à suas mortes. Não esquecemos, não perdoamos.
Fonte: esquerdadiario.com.br

Adaptação: ANE/RN, em 24/06/2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

Por que criar uma campanha permanente de combate à violência nas escolas?

A iniciativa surge em momento de cenário alarmante no país, com registros de agressões entre estudantes, educadores e familiares. Mais de 22,6 mil professores foram ameaçados por alunos e mais de 4,7 mil sofreram atentados à vida nas escolas em que lecionam. Os dados são do questionário da Prova Brasil 2015, aplicado a diretores, alunos e professores 5º e do 9º anos do ensino fundamental de todo o país.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência como o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação.

A violência verbal ou física atingiu 42% dos alunos da rede pública em 2015. É o que revela uma pesquisa realizada pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em parceria com o Ministério da Educação e a Organização dos Estados Interamericanos (OEI). A pesquisa ouviu 6.709 estudantes, de 12 a 29 anos, em sete capitais brasileiras: Maceió, Fortaleza, Vitória, Salvador, São Luís, Belém e Belo Horizonte.


A luta da Confederação frente aos tipos de violência está em sintonia com o pensamento freireano, que tem a tolerância autêntica, uma das qualidades fundantes da vida democrática, na visão dele, como aquela que “demanda respeito ao diferente, seus sonhos, idéias, opções e gostos.”
22.6
mil professores foram ameaçados por alunos
Questionário da Prova Brasil – 2015
42%
dos alunos da rede pública foram vítimas de violência
Pesquisa da Flacso em parceria com o MEC organização dos estados interamericanos – 2015

Fonte: CNTE

Inscrições para o 3º Encontro LGBT da UNE já estão abertas

Evento acontece de 27 a 29 de julho, na capital baiana
As inscrições para o 3º Encontro LGBT da União Nacional dos Estudantes (UNE), que acontece de 27 a 29 de julho, na Universidade Estadual da Bahia (Uneb), em Salvador, já estão abertas. O valor é de R$40,00 e você pode fazer a sua aqui.
Sob o tema ‘’Nossas Vidas importam: mais democracia e um Brasil livre de LGBTfobia’’ o evento reunirá as LGBTs universitárias do país para discutir as estratégias em defesa da democracia e também o papel dessa juventude acerca das eleições presidenciais.
Debates, grupos de vivências de identidades e performances artísticas também farão parte da programação.
Para o diretor LGBT da UNE, Florentino Junior, a troca de conhecimento e a unidade da juventude LGBT serão alguns dos pontos altos do evento. ”Esperamos que seja um grande evento não só em quantidade, mas em qualidade e que consigamos mostrar que não é apenas um momento comemorativo. São resistências, são vidas… Nossas vidas importam’, destacou.

DIRETORIA LGBT

No 49º Congresso da UNE, em 2005, a entidade aprovou a criação da Diretoria de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgênero – GLBT e também propostas importantes, em sua resolução. Com a luta feminista pela visibilidade das mulheres a sigla foi alterada para Diretoria de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgênero – LGBT.
Um dos projetos já articulados e difundidos é o “Universidade Fora do Armário – UFA”, que deu o ponta pé inicial à organização do movimento estudantil LGBT, fortalecendo e ampliando aliança com o movimento social. Muitos dos pontos das resoluções do longo da história da diretoria foram conquistados, contudo tantos outros seguem na luta.
Em 2016 os estudantes conquistaram o direito de ter seu nome social respeitado no documento da UNE, UBES e ANPG. No site documentodoestudante.com.br ao preencher o cadastro, no campo da opção gênero, tem as escolhas masculino, feminino, travesti e transexual. Quando a pessoa escolhe a opção travesti ou a transexual, automaticamente abre o campo para se preencher o nome social.
Neste mesmo ano pela primeira vez uma gestão da União Nacional dos Estudantes foi composta por estudantes trans. Entre os seus 85 diretores estavam as estudantes de Direito Daniella Veiga e Amanda Souza.
Ao completar 13 anos da pasta, a UNE segue firme na luta em defesa da educação laica e da democracia do país, articulando o movimento estudantil com o intuito de promover cada vez mais possibilidades da entrada, permanência e saída de LGBTs nas instituições de ensino, combatendo todo e qualquer tipo de discriminação por orientação sexual e identidade de gênero em diálogo também com o mundo do trabalho.

SERVIÇO

O que? 3º Encontro LGBT da União Nacional dos Estudantes (UNE)
Quando? De 27 a 29 de julho
Onde? Salvador – BA
Inscrições – http://inscricao.une.org.br/

quinta-feira, 14 de junho de 2018

GOLPE AVANÇA SOBRE OS POVOS TRADICIONAIS


Ao negar bolsa-permanência aos estudantes indígenas e quilombolas, Governo Temer nega acesso dos povos tradicionais às Universidades.
O Golpe avança cada vez mais feroz sob os Povos e Comunidades Tradicionais. Os reflexos da Emenda Constitucional do Teto de Gastos (EC 95), que congela os investimentos na educação por 20 anos, já atingem milhares de indígenas e quilombolas presentes nas universidades e institutos federais do país.
O desgoverno de Temer interrompeu o Programa Bolsa-Permanência (PBP), negando a disponibilidade de novas bolsas como garantia de permanência de aproximadamente 2.500 estudantes em 2018 nas Universidades brasileiras. O PBP foi criado em 2013 e, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), desde sua criação, o programa atendeu 7.370 indígenas e 2.666 quilombolas. Segundo dados da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e inclusão (SECADI) do MEC só no primeiro semestre deste ano são 2.500 novos estudantes para acessarem o Programa e fazendo uma projeção até o final de 2018 a demanda aumentará para cerca de 5.000 estudantes.
No dia 29 de maio, em resposta às manifestações dos estudantes e de suas comunidades, o Ministro Rossieli Soares da Silva lançou uma proposta absurda para solucionar a questão. Em reunião com cerca de 20 estudantes indígenas e quilombolas vindos das cinco regiões do Brasil, o desgoverno disponibilizou apenas 800 bolsas para atender a demanda de 5.000 estudantes, alegando que há um rombo de quase 11 milhões no PBP. Além disso, o Ministro sugeriu que a formação de uma comissão de estudantes indígenas e quilombolas para formular os critérios de divisão das 800 bolsas. Em contrapartida, esse mesmo desgoverno disponibiliza reajuste de 3% no auxílio alimentação e no auxílio pré-escola para juízes e procuradores que individualmente, custam cerca de 28.000 mil mensais aos cofres públicos.
Sabemos que o Golpe tem golpeado com mais força alguns grupos sociais e a juventude é um dos mais atingidos.  Enquanto movimento que luta por um projeto popular para juventude, o Levante compreende que a perda do direito dos estudantes indígenas e quilombolas acessarem e permanecerem estudando é mais um ataque do Governo Temer aos jovens. A proposta do Ministro da Educação, por  é uma estratégia para jogar uns contra os outros, incentivar o privilégio, o individualismo e destruir a existência, que é coletiva, de cada um desses sujeitos. Com essa atitude, o Governo Golpista reafirma seu caráter racista e nega a dívida histórica que o país tem com os Povos Tradicionais, em mais de 500 anos de massacre físico e cultural.
O momento é de unidade e defesa das nossas conquistas. Lutar por permanência é lutar por um Projeto Popular para a Educação. Queremos uma Universidade de todos os Povos. Essa é uma luta de todas e todos!
BOLSA FICA, TEMER SAI!
Levante Popular da Juventude

Estudantes da UFSCar conquistam suspensão de reajuste do RU

Estudantes da UFSCar conquistam suspensão de reajuste do RU

Após 36 dias de ocupação e mobilização, os estudantes do UFSCar  (Universidade Federal de São Carlos)  conquistaram uma vitória histórica: o reajuste do valor do restaurante universitário - que chegou a 122% - foi suspenso temporariamente.

A mobilização intensa dos estudantes pressionou à realização de uma reunião extraordinária do Conselho Universitário para tratar sobre o reajuste. Após muitos debates, foi decidido que durante dois meses o valor voltará a ser de R$ 1,80, até que uma comissão  - com representantes da direção, professores e estudantes - defina o novo valor
Também foi apresentada uma segunda proposta, que mantinha o valor de R$ 1,80 apenas para o bolsistas  - sendo que os demais estudantes pagariam R$ 2,50 por refeição no bandejão. Porém, essa sugestão obteve apenas 16 votos, contra 31 da primeira.

João Modesto, estudante de Geografia da UFSCar, membro do DCE Livre e diretor regional de Sorocaba da UEE-SP, a revogação do aumento só aconteceu por conta da perseverança dos estudantes por mais de um mês ocupando diversos prédios do campus de Sorocaba e até mesmo a reitoria, no campus de São Carlos, sofrendo com  truculência e intimidação durante a reintegração de posse pela Polícia.

"Além da falta de diálogo ao decidirem pelo reajuste, durante a nossa manifestação contrária ao aumento, a direção ainda tenta criminalizar a mobilização estudantil, processando sete estudantes que participaram da ocupação", conta João.

Para o estudante, a revogação é comemorada e todo orçamento será avaliado ponto a ponto nos próximos dias para chegar a um reajuste que não prejudique os estudantes. Para o DCE LIVRE da UFSCar, a transparência das contas da universitária é o ideal para que se chegue a um consenso. " Uma coisa é certa, não aceitaremos os R$ 4,00 como novo valor".

Para Ergon Cugler, diretor de universidades públicas da UEE-SP,  a luta dos estudantes da UFSCar foi poderosa para combater a evasão universitária que é aumentada em momentos de crise econômica.  Cada estudante que deixa de se formar é um desperdício de investimento, de energia da juventude e aponta para uma falta de perspectiva e frustação por não conseguir concluir a graduação.

"Para o movimento estudantil paulista, a permanência deve ser encarada para muito além de um privilégio ou benefício, mas como direito. Pois somente popularizando cada vez mais a universidade e garantindo acesso aos diversos setores sociais, podemos profundamente transformar a sociedade", avalia Ergon.

Fonte: UEE/SP

segunda-feira, 11 de junho de 2018

#SaúdeMental: Racismo não é “mi mi mi”!

algumas semancanal. As ofensas criticavam o cabelo e a cor de pele da pequena. Há um mês, bilhetes racistas foram encontrados no banheiro da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Preconceito racial afeta o psicológico e vida acadêmica de crianças e adolescentes;

Há algumas semanas, uma youtuber de 11 anos sofreu ataques em seu canal. As ofensas criticavam o cabelo e a cor de pele da pequena. Há um mês, bilhetes racistas foram encontrados no banheiro da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Para o psicólogo e professor Paulo Vitor Palma Navasconi, casos individuais jamais podem ser tratados como exceções. São apenas alguns sintomas mais visíveis de relações sociais que fazem mal à saúde mental da população negra todos os dias.
“No Brasil, o preconceito racial pode ser transposto e exemplificado como um fantasma: ninguém o vê, mas ele existe”, afirma o doutorando em Psicologia.
Em entrevista ao site da UBES, o especialista explica como este “fantasma” promove sofrimento psíquico desde a idade escolar. Mas também como o próprio ambiente da escola pode contribuir para melhorar estas relações raciais que trazem sofrimento.
O fundamental, ele diz, é compreender as relações raciais como uma estrutura que organiza nossas relações sociais, culturais, econômicas, políticas e educacionais:
“Quando falamos sobre racismo, estamos falando de uma estrutura de poder que irá hierarquizar vidas, subjetividades e delegará quais vidas importam e quais vidas não importam. Que irá hierarquizar o que é belo e o que não é belo”.

Paulo Vitor Palma Navasconi é doutorando em Psicologia e Professor Universitário na FCV (Faculdade Cidade Verde), em Maringá, Paraná.

Dedica-se a estudos relacionados à raça, gênero e genocídio da população negra.

Desenvolvimento pedagógico prejudicado

Navasconi pontua que, além das diferenças socioeconômicas, o baixo desempenho dos alunos negros (veja dados aqui) se deve às práticas discriminatórias na escola, muitas vezes veladas: “Há uma estrutura de poder que legitima e corrobora para as desigualdades sociais, raciais e de gênero”.
Para ele, outro fator que contribui para que o negro sinta-se inferiorizado é o conteúdo das aulas, principalmente de história. Atualmente, quando se fala da história africana e de seus descendentes, é abordado o período escravocrata, mas nunca rompendo com a lógica racista nem ressaltando pontos positivos da identidade negra.

O psicólogo afirma que o racismo afeta o desenvolvimento interpessoal e intelectual de crianças e adolescentes negros. Há uma dificuldade em se aceitar, além do silenciamento dessas crianças, que têm que lidar com a situação como algo que faz parte de sua “condição”, aumentando o sofrimento. “Como não se odiar diante de um contexto tão cruel?”, questiona.

O papel da escola na luta contra o racismo

Como professor, Paulo Navasconi diz ser fundamental alertar e mobilizar o âmbito acadêmico para que sejam asseguradas a equidade e a igualdade étnico-racial desde a infância.
É de extrema importância que as escolas trabalhem as questões étnico-raciais, dando foco nas lutas, conquistas, avanços e contribuições que a população negra fizeram e fazem para a história.
As instituições de ensino são reguladas pela Lei 10.639/ 2003, que institui a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira em sua grade curricular, mas o psicólogo e professor sinaliza que ainda há muito a ser feito:
“A negritude é lembrada nos espaços escolares apenas no Dia Da Consciência Negra. Uma questão prática, mas pouco divulgada, é que os pais podem e devem se informar acerca de como esse trabalho é realizado nas escolas de seus filhos, a fim de possibilitar cada vez mais a efetivação de uma educação antirracista”.
A UBES defende a efetivação imediata da Lei 10.639/ 2003! “A escola, como instituição do saber, principalmente nas séries iniciais, deve estabelecer e manter o diálogo com seus professores e alunos sobre todos os tipos de preconceito”, diz Bruna Santos, Diretora de Movimentos Sociais da UBES (leia depoimento abaixo).

Como os adultos podem ajudar?

Crianças e adolescentes que passam pelo preconceito racial tendem a ter uma queda em seu rendimento escolar, não ter mais vontade ir à escola, entre outros sinais que requerem observação de um adulto próximo.
O profissional alerta: “É fundamental que pais, responsáveis e educadores fiquem atentos a mudanças no comportamento e também marcas no corpo dessa criança. Muitas delas são agredidas na escola ou, até mesmo, passam a se agredir por estarem vivenciando discriminação racial”.
Dificuldade de se relacionar em grupo, de se expressar criativamente nas brincadeiras e rompantes de agressividade sem motivo aparente são também sintomas que merecem atenção da família, da escola e dos profissionais de psicologia.
“Outro fator fundamental que cabe à sociedade como um todo, mas aqui sinalizo a instituição de ensino, é o papel que ela possui de tensionar a lógica racista. Acredito que fortalecer a identidade dessa criança e intervir junto à escola e família é um caminho frutífero para uma condição psíquica mais empoderada a respeito de si mesma e na relação com os outros”, destaca Navasconi.

“Carvãozinho, cabelo de Bombril, macaca, negrinha. Era dessa forma que se referiam a mim na rua e na escola”

Depoimento da Diretora de Movimentos Sociais da UBES, Bruna Santos
Bruna Santos tem 18 anos e é estudante de pré-vestibular.
Carvãozinho, cabelo de Bombril, macaca, negrinha. Era dessa forma que se referiam a mim na rua e principalmente na escola. Apelidos que na infância não conseguia associar como práticas preconceituosas, até porque, infelizmente, em muitas escolas o racismo não é abordado e discutido.
Talvez, por esse motivo, me culpasse por ser diferente das outras pessoas. A pele diferente sempre era a minha, o cabelo diferente sempre era o meu, e não tinha ninguém para me falar que eu era normal igual aos outros, mesmo eu sendo a única criança negra na minha turma.
Meus pais, por falta de informação, não podiam amparar minhas angústias porque eles também sentiam a mesma coisa, eles também eram vítimas! Apenas sofriam junto comigo. Hoje, como militante de Movimento Estudantil e mulher negra, tento através do diálogo e ações empoderar outras pessoas que sofreram e que sofrem a mesma dor e o desamparo que sofri.
A escola, como instituição do saber, principalmente nas séries iniciais, deve estabelecer e manter o diálogo com seus professores e estudantes sobre todos os tipos de preconceito, semeando a prática do respeito ao próximo. Começando pela releitura dos livros didáticos e a forma que suas informações são transmitidas.
Desconstruir a ideia de que a população negra veio para o Brasil, citar a resistência, a luta, as conquistas e a importância desses povos para a formação social e cultural do nosso país é fundamental.
É preciso apontar os desafios que nós ainda somos submetidos a enfrentar diariamente com uma sociedade racista que nos oprime e nos mata diariamente por causa da cor da nossa pele.