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terça-feira, 23 de agosto de 2011

QUEM DECIDE ONDE E QUANDO AMAMENTAR É A MÃE. E O BEBÊ


 QUEM DECIDE ONDE E QUANDO AMAMENTAR É A MÃE. E O BEBÊ

Tudo isso que vou dizer não é minha experiência pessoal, já que não sou mãe. Mas é o que leio e ouço de amigas. Então. Para mães de primeira viagem, amamentar não é fácil. São muitos os mitos do “não tenho leite o suficiente”, “o bebê não pega bem”, etc etc. Junte a isso uma condenação social ao ato (vinda às vezes do próprio parceiro!), e o que vai acontecer? Menos mães vão amamentar. E amamentar é ótimo tanto pro bebê (é o único alimento feito especialmente pra ele) quanto pra mãe, que cria um vínculo maior com o bebê, reduz os riscos de câncer, ajuda a perder o peso da gravidez, entre outros. Não é horrível que uma atividade que só traga benefícios ― há estudos aos montes mostrando as vantagens da amamentação ― seja algo que tanta gente condena? Uma leitora me disse outro dia: quem é contra a amamentação em público é contra a amamentação, ponto. E é verdade. Porque se a mãe trabalha (e a maior parte trabalha), e não há creches no local, e ela precisa se locomover ao trabalho levando o bebê, e bebê não escolhe hora pra sentir fome, como ela poderá amamentar se não for ocasionalmente na rua, no ônibus, na praça? (e não estou condenando qualquer mulher que tenha pouco leite e não possa amamentar o filho. Ninguém deixa de ser mais ou menos mãe por causa disso, assim como não engravidar e parir não faz de uma mulher menos mulher, ou o que seria das mulheres inférteis e das mães adotivas?).
Vi uma pesquisa dizendo que, na Inglaterra, 55% das mães têm vergonha de amamentar em público. Inacreditáveis 25% (um quarto das mães inglesas!) já ouviram de estranhos para procurarem um lugar mais privado quando estavam amamentando em público. O que dá direito a um completo estranho chegar pra uma mãe e mandá-la prum outro lugar? O que você, mãe, faria num caso desses? Qual palavrão você usaria primeiro contra esse intrometido ridículo?
Imagino que, de forma abstrata, até aqueles filhos de chocadeira que acham “nojento” ver mulher amamentar sabem que é algo bom. Não creio que eles realmente defendam que o bebê seja alimentado com leite em pó de vaca (apesar das inúmeras campanhas de multinacionais querendo nos convencer que leite de outro mamífero é melhor que o nosso próprio), ou que queiram ver um bebê chorando de fome. O problema não parece ser com o bebê, portanto. Se não é com ele, é com quem? Ué, com a mãe. Com a mulher que amamenta. Esse pessoal também não tem nada contra seios, imagino. Eles até gostam, se tais seios estiverem estritamente dentro do padrão de beleza. Sim, porque essa galera costuma pensar que todos os seios são iguais. Mas o que os molesta é ver esses seios servindo pra outra coisa que não seja poder ser encarados.
Outro dia assisti a um episódio antigo do seriado Friends, em que um dos amigos, então já casado, recebe a visita dos outros. Sua mulher está com um bebê no colo, e quando ele começa a chorar, ela lhe dá o peito. Assim, na sua própria casa, num lugar particular, fechado. E qual é a atitude dos dois rapazes que não são pais? Eles se levantam correndo, envergonhados, e fogem pra cozinha, pra não ter que ver aquele “espetáculo degradante” de uma mulher amamentando! O outro que é pai vai atrás deles, perguntando “Qualé? Isso é natural. É a coisa mais linda do mundo!”. E a resposta dos dois: “É, e tem um bebê chupando nele!”.
Eu adoro essa piadinha, porque ela diz horrores do conservadorismo americano. Não tem jeito não: pra eles, seios são objetos sexuais masculinos. Quer dizer, seios não pertencem nem à própria mulher, mas aos homens. Seios só servem, segundo eles, pra causar desejo. Aquela outra função tão primordial que é amamentar? Tudo bem, desde que ninguém mais fora a mãe e o bebê estejam presentes. Isso pra não chocar os homens, que ficam indignados ao verem seu playground usado pra outra utilidade. O terrível é que é este cenário que estamos trazendo pra cá, pro Brasil.
Uma outra leitora levantou a questão de que o desconforto que algumas pessoas têm ao ver mães amamentando é religioso. Interessante isso. Não duvido. Religião é uma das maiores causas de desconforto para todas as funções fisiológicas.
Não que eu ou qualquer outra pessoa defensora da amamentação (e isso inclui amamentação em público) esteja obrigando uma mãe a amamentar em público, ou a não se cobrir quando amamenta. Esse argumento de que nós é que queremos proibir alguma coisa é estúpido, e é parecido com aquela confusão ignorante de que defender a legalização do aborto equivale a forçar as mulheres a abortar. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. A palavra-chave é liberdade. O corpo é da mulher. Se ela quiser amamentar em público, deve ter todo direito de fazê-lo. Se ela não quiser amamentar em público, deve ter todo direito de não fazê-lo. Se ela quiser se cobrir com uma burka pra amamentar, a decisão é dela. É ela quem decide, não eu. Não você.
Mas veja só como esta ― como todos os outros temas que envolvem o corpo da mulher ― é uma questão feminista sobre liberdade e delimitação de território. Um leitor reacionário disse que deveríamos poder processar mães que amamentam em público por atentado ao pudor. Pode isso?! Como alguém tem um pensamento desses? Pois é, sei que é difícil de acreditar, mas nos EUA ― terra da liberdade ― já há vários casos de mulheres processadas por amamentar em “local inadequado” (parece que 12 mil mulheres por ano são levadas à delegacia por amamentar em público, e outras 30 mil por alguma outra atividade topless). É isso mesmo que queremos? Um estado policial para pessoas que não estão fazendo nada de errado (muito pelo contrário)?
Outro dia recebi um email de um rapaz revoltado por eu ser a favor da legalização do aborto. Ele disse que “feminismo é suicídio social”, porque, graças ao feminismo, segundo ele, as mulheres estão cada vez mais infelizes. E a única coisa que ele gostou de tudo que eu escrevi foi ver que sou a favor da amamentação. Mas com uma ressalva: “Isso não é difeito da mulher, é direito da criança!”.
Preciso falar mais?
Fonte: Escreva Lola Escreva.

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